sábado, março 17, 2012



Saga - Filipe Catto


Andei depressa para não rever meus passos
Por uma noite tão fugaz que eu nem senti
Tão lancinante, que ao olhar pra trás agora
Só me restam devaneios do que um dia eu vivi

Se eu soubesse que o amor é coisa aguda
Que tão brutal percorre início, meio e fim
Destrincha a alma, corta fundo na espinha
Inebria a garganta, fere a quem quiser ferir

Enquanto andava, maldizendo a poesia
Eu contei a história minha pr´uma noite que rompeu
Virou do avesso, e ao chegar a luz do dia
Tropecei em mais um verso sobre o que o tempo esqueceu

E nessa Saga venho com pedras e brasa
Venho com força, mas sem nunca me esquecer
Que era fácil se perder por entre sonhos
E deixar o coração sangrando até enlouquecer

E era de gozo, uma mentira, uma bobagem
Senti meu peito, atingido, se inflamar
E fui gostando do sabor daquela coisa
Viciando em cada verso que o amor veio trovar

Mas, de repente, uma farpa meio intrusa
Veio cegar minha emoção de suspirar
Se eu soubesse que o amor é coisa assim
Não pegava, não bebia, não deixava embebedar

E agora andando, encharcado de estrelas
Eu cantei a noite inteira pro meu peito sossegar
Me fiz tão forte quanto o escuro do infinito
E tão frágil quanto o brilho da manhã que eu vi chegar

E nessa Saga venho com pedras e brasa
Venho sorrindo, mas sem nunca me esquecer
Que era fácil se perder por entre sonhos
E deixar o coração sangrando até enlouquecer








sábado, fevereiro 11, 2012

terça-feira, janeiro 31, 2012



O que você acredita que deve ser feito
[versus]
O que você sente que precisa fazer




Carpinejar

segunda-feira, janeiro 30, 2012

Explicação



O pensamento é triste; o amor, insuficiente;
e eu quero sempre mais do que vem nos milagres.
Deixo que a terra me sustente:
guardo o resto para mais tarde.

Deus não fala comigo - e eu sei que me conhece.
A antigos ventos dei as lágrimas que tinha.
A estrela sobe, a estrela desce...
- espero a minha própria vinda.

(Navego pela memória
sem margens.

Alguém conta a minha história
E alguém mata os personagens.)


Borboletas

Em meio a cobras de emoções,
Lindas asas observo,
Borboletas reparo!
Mas não voam como eu quero!

Não voa como o vento.
É finita, lenta.
E quinze já eu tenho!
Só a vejo, borboleta.

Que vai e volta,
Das outras se solta
Numa grande imensidão.

Do grande Deus presente,
Borboletas inocentes,
Que nem tão inocentes são...




Caroline Ferreira

terça-feira, janeiro 17, 2012

Canção Excêntrica



Ando à procura de espaço
para o desenho da vida.
Em números me embaraço
e perco sempre a medida.
Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
protejo-me num abraço
e gero uma despedida.

Se volto sobre meu passo,
é distância perdida.

Meu coração, coisa de aço,
começa a achar um cansaço
esta procura de espaço
para o desenho da vida.
Já por exausta e descrida
não me animo a um breve traço:
- saudosa do que não faço,
- do que faço, arrependida.


Cecília Meireles

sábado, janeiro 07, 2012

Chega do nada, deixando saudade

Chega do nada, deixando saudade
Arruma briga, prende a atenção
não me dá o sorriso
Mas me dá coragem
Faz bater mais meu coração!

Sinto seus olhares,
mesmo que superficiais
Envolvendo-me a milhares
De sensaçõs novas
E especiais.

Faz meu português
Virar língua estrangeira
Me faz o querer de vez
Ser sua linda,
Sua estrela.

Me faz querer ser mais eu contigo!


Caroline Ferreira

você teria ido sem mim

você teria ido sem mim
mesmo que eu não me atrasasse


você teria dito tudo aquilo
mesmo que eu não te ofendesse


você teria me deixado
mesmo que eu não propusesse


você faz tudo o que quer
mas sou eu que deixo tudo preparado.





Martha Medeiros

Poesia Reunida

 Dispersão - Mário de Sá Carneiro

(...)Eu fui amante inconstante
Que se traiu a si mesmo.

Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que protejo:
Se me olho a um espelho, erro -
Não me acho no que projeto.

Regresso dentro de mim
Mas nada me fala, nada!
Tenho a alma amortalhada,
Sequinha, dentro de mim."

(...) quando eu falava, pareciam apalpar-me, ouvir-me, cheirar-me, gostar-me, fazer o ofício de todos os sentidos"


Bentinho em Dom Casmurro - Machado de Assis

sexta-feira, janeiro 06, 2012

Do livro 'Esse amor de todos nós

"Oh, eu o amei demais para não lhe ter ódio."
- Jean Racine
(1639-1980)


Aos 66 anos, você sabe tudo sobre o amor e o amor não é paixão. A paixão é exigente, ciumenta e tem altos e baixos. O amor é constante,"
- Jeane Moreau, em Sixty Minutes, talk-show da CBS.


No amor há duas coisas - corpos e palavras."
- Joyce Carol Oates
(1939)


Apaixonar-se é criar uma religião cujo deus é falível."
- Jorge Luis Borges. Também atribuído a Paul Valéry.


Tínhamos muito em comum, eu o amava e ele se amava."
- Shelley Winters - Bittersweet, de Susan Stranberg, 1980.








Do livro 'Esse amor de todos nós
"Eu detesto me apaixonar. Quando me apaixono, o pior de mim vem à tona."
Ney Matogrosso, Jornal do Brasil, 
Caderno B, março, 1995.


Essa é uma das frases, que compõe o livro "Esse amor de todos nós" de Marina Colasanti.

'Um livro plural. De muitas vozes. Vozes de artistas e de teóricos, vozes anônimas da tradição popular, vozes de culturas distintas se juntam aqui num vasto coral que não apenas canta o amor, como o desenha (...)

sábado, dezembro 10, 2011

O amor é um cão dos diabos

Cerveja




não sei quantas garrafas de cerveja
consumi esperando que as coisas
melhorassem.
não sei quanto vinho e uísque
e cerveja
principalmente cerveja
consumi depois
de rompimentos com mulheres
esperando o telefone tocar
esperando o som dos passos,
e o telefone nunca toca
antes que seja tarde demais
e os passos nunca chegam
antes que seja tarde demais.
quando meu estômago já está saindo
pela boca
elas chegam frescas como flores de primavera:
"mas que diabos você está fazendo?
vai levar três dias antes que você possa me comer!"
a mulher é durável
vive sete anos e meio a mais que o homem,
bebe pouca cerveja porque sabe como ela é ruim para
a aparência.

enquanto enlouquecemos
elas saem
dançam e riem
com caubóis cheios de tesão.

bem, há a cerveja,
sacos e mais sacos de garrafas vazias de cerveja
e quando você pega uma
as garrafas caem através do fundo úmido
do saco de papel
rolando
tilintando
cuspindo cinza molhada
e cerveja choca,
ou então os sacos caem às 4 horas
da manhã
produzindo o único som em sua vida.

cerveja
rios e mares de cerveja
cerveja, cerveja, cerveja.
o rádio toca canções de amor
enquanto o telefone permanece mudo
e as paredes seguem
paradas e estáticas
e a cerveja é tudo o que há.




Charles Bukowski
Ele (LFV) faz o simples sofisticado... 
AMO esse livro.

sexta-feira, dezembro 09, 2011

O corpo e a mente



O corpo e a mente
têm biografias separadas
cada um tem sua memória  própria,
seu próprio jogo de charadas.
Meu corpo tem lembranças
-cheiros, tiques, andanças-
que a mente não registrou
e o corpo não tem as marcas
de metade do que a mente passou.
(Pior que uma mente insana
num corpo sem muito assunto
é um corpo que já foi ao nirvana
sem que a mente tenha ido junto.)
Cada um tem um passado
do qual o outro não tem pista
(como um bilhete amassado)
e nem o Mahabharata
explica uma mente anarquista
num corpo socialdemocrata.
Compartilham bioplasmas
e o gosto por certas atrizes,
mas não tem os mesmos fantasmas
nem as mesmas cicatrizes.
Das duas, uma, gente:
ou toda mente é de outro corpo
-ou todo corpo mente.

Luis Fernando Verissimo

terça-feira, novembro 29, 2011

Drummond

"porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.


Muita saudade da sua presença na minha vida.

sábado, novembro 19, 2011

O Gênio das Multidões




o que existe de falsidade, ódio, violência e absurdo na
pessoa mediana é suficiente para abastecer qualquer
exército em qualquer dia
e os melhores no assassinato são aqueles que pregam contra ele
e os melhores no ódio são aqueles que pregam o amor
e os melhores na guerra por fim são aqueles que pregam a paz

aqueles que pregam deus, precisam de deus
aqueles que pregam a paz não têm paz
aqueles que pregam o amor não têm amor

cuidado com os pregadores
cuidado com os sabe-tudo
cuidado com aqueles que estão sempre lendo livros
cuidado com aqueles que ou detestam a pobreza
ou têm orgulho dela
cuidado com aqueles que elogiam facilmente
porque precisam de elogios em troca
cuidado com aqueles que censuram facilmente
porque têm medo do que não conhecem
cuidado com aqueles que sempre procuram multidões
porque sozinhos não são nada

cuidado com o homem mediano, com a mulher mediana
cuidado com seu amor, seu amor é mediano
busca o mediano
mas existe gênio em seu ódio
há gênio suficiente em seu ódio para te matar
para matar qualquer um

não desejando a solidão
não entendendo a solidão
eles vão tentar destruir qualquer coisa
que seja diferente das que conhece.

não sendo capazes de criar arte
eles não entenderão arte
eles irão considerar seu fracasso como criadores

apenas como uma falha do mundo

não sendo capazes de amar completamente
eles acharão que o seu amor é incompleto
e então eles lhe odiarão
e seu ódio será perfeito
como o brilho de um diamante
como uma faca
como uma montanha
como um tigre
como erva daninha

sua mais perfeita arte

Charles Bukowski